A Sociedade dos Poetas Safados – Conto I – Parte 2

De barriga cheia, entrei em um táxi e pedi ao motorista para que ele me levasse direto para a Pinacoteca do Estado de São Paulo. E assim o fez, tão logo coloquei o cinto de segurança. Alguns minutos depois, já estávamos de frente à bela construção. Então, olhei rapidamente para o lado de fora para admirar toda aquela rica arquitetura e paguei o motorista.

— Obrigado — agradeci e saí do sedan branco de marca popular.

Sob um céu totalmente nublado, atravessei o grande portão esverdeado, subi alguns lances de escadas e paguei a minha entrada na bilheteria. Com o bilhete em mãos, entrei na Pinacoteca e comecei a ver todas as obras que faziam parte da mostra. E, assim que passei próximo a um porta-panfleto, aproveitei e peguei um que falava das principais obras que ali estavam. Obras essas que eram de artistas de várias partes do mundo.
Feliz com o que já estava vendo e com as informações que havia lido, continuei a caminhar pelo grande salão e parei de frente a uma pintura que esboçava a figura de dois homens nus que estavam a se beijar sob a sombra de uma mangueira frondosa e cheia de frutos maduros. Mas não era um beijo qualquer. Era um beijo de entrega. De desejo e luxúria. O pintor foi bem felizardo em transmitir tais atos em uma pintura a óleo.

Admirado, olhei-a mais de perto e vi que tinha uma pequena informação sobre o pintor. Aroldo Carvalhais, natural de Diamantina e morador ocasional da cidade de São Paulo. Começou a pintar na infância e já teve suas obras expostas nas melhores pinacotecas do mundo, como as de Paris, Londres e Austrália.

— Gostou? — perguntou-me um jovem rapaz que aparentava ter menos de trinta anos.

— Bem interessante! O pintor soube retratar muito bem a luxúria, a meu ver. Dá para ver claramente que os dois se querem, mesmo que, talvez, um não venha a amar o outro. Mas eles não se preocupam muito com isso. O que eles querem sentir é o prazer do momento. O momento é o que importa para eles.

— O que te faz pensar isso? — disse, assim que os meus olhos se encontraram com os dele.

Meio que enfeitiçado, fiquei em silêncio por alguns segundos e reparei em cada detalhe do seu rosto bonito. Desde a sua tez negra e sem manchas à sua boca carnuda e bem delineada.

— É apenas uma sensação.
Voltei a olhar para a imagem que maravilhosamente me encantara e passei a língua sobre o meu lábio inferior, mordiscando-o em seguida.

— E você, o que acha? — questionei-o, olhando fundo em seus olhos levemente amendoados e naturalmente sensuais.

— Penso o mesmo que você. Os dois se completam de alguma maneira. Talvez esse seja o primeiro e último encontro deles. Quem sabe? — deu de ombros. — Por isso que se entregaram aos prazeres sem se preocuparem muito com o que poderia acontecer depois.

— Bem verdade. Por isso que a cidade está bem desfocada e quase desaparece por entre as folhas da mangueira. Boa observação.

— Muito obrigado — disse ele, passando um dos dedos sobre os seus lábios deliciosamente chamativos.

Tal ato fez com que os meus olhos se fixassem imediatamente naquela boca de aparência macia e altamente calorosa por alguns breves segundos.

— Eu me chamo Ismael e você?

— Aroldo.

— Prazer, Aroldo — estendi a mão em sua direção e ele a apertou de maneira forte, mas não rude.

— O prazer é todo meu — disse com um sorriso alegre e sexy.
Quando soltou a minha mão, eu fechei um pouco os olhos e os fixei sobre aquele rosto másculo, inteligente e atraente.

— Você não é o Aroldo Carvalhais, é?

O rapaz abriu um sorriso gostoso de ver e nisso, notei os seus dentes naturalmente brancos, brilhantes e saudáveis.

— O próprio.

— Desculpe, mas não acredito. Esse tipo de coincidência não acontece assim tão fácil, creio eu.

Sem nada dizer, ele tirou a carteira de habilitação do bolso da jaqueta jeans que vestia e a mostrou para mim. Tudo era verdade. Devolvi a ele o documento e fiquei com um sorriso um pouco sem graça em meus lábios.

— Não precisa ficar assim, Ismael. Você tem um ponto positivo comigo. Conseguiu entender bem o que eu queria passar na pintura. E isso me deixou bem contente, devo confessar.

— E tem razão para ficar assim, jovem rapaz. Sua tela é muito bonita e traduz bem o que se passava em sua mente, creio eu, ao pinta-la.

— Muito obrigado! Isso é bem verdade… Algumas pessoas, claro que não generalizando, costumam passar em frente a alguma obra de arte e nem tentam enxergar o que há por trás dela, sabe? Apenas dizem que é bonita ou feia. Nada mais.

— Eu disse apenas o que vi e o que senti. Mas, pra falar a verdade, eu sou um amante das obras de arte. Gosto de ficar me questionando o que o autor quis dizer com a obra dele, entende?

— Sim, claro. Já que estamos aqui… — disse e engoliu a saliva. Nisso, seu pomo de adão que era um pouco proeminente subiu e desceu bem devagar.

— Que tal continuarmos a ver as outras obras? Está muito ocupado ou está com muita pressa para sair daqui?

— Estou livre durante a tarde inteira.

Começamos a caminhar um ao lado do outro e sempre que uma obra ou peça nos chamava a atenção, nós parávamos por algum momento e ficávamos conversando sobre o que o artista quis dizer com a sua arte.
Vimos todas as obras que faziam parte da exposição e entre uma obra e outra, eu comecei a reparar como ele me olhava. Era um olhar intenso, diferente e com bastante interesse, sabe?

Ele é bem bonito e…

— Gostaria de tomar um café? — questionou-me ele, coçando a lateral da cabeça.

— Gostaria, sim.

— Seria algum problema para você se fossemos tomar o café em meu apartamento?

Trocamos um olhar discreto e um sorriso de contentamento imediatamente brotou nos meus lábios, pois aquilo não era somente um convite para tomarmos um simples cafezinho da tarde.

— Nenhum problema, Aroldo.

— Desculpe-me se acaso eu estou atrapalhando… — disse uma mulher, assim que se aproximou da gente. — Mas você é o Aroldo Carvalhais, não é mesmo?

— Sim, sou eu mesmo.

— Posso tirar uma foto contigo? Sou uma grande admiradora do seu trabalho.

— Sim, claro.

— Poderia ser em frente a sua tela?

Nós abrimos um sorriso de orelha a orelha e fomos em direção ao local onde a obra de arte estava. No caminho, eles foram um pouco na frente e nesse momento eu pude reparar melhor na sua bunda roliça e naturalmente arrebitada.

Isso também é uma bela de se ver…

Continua

Este conto faz parte do e-book A Sociedade dos Poetas Safados do escritor Mike Schmütz (@autormike07) e o mesmo se encontra integralmente disponível para venda no site da Amazon. Conheça também outras obras do autor e apoie um escritor que publica a sua obra de forma independente.